Passar mais tempo acordado com os colegas de trabalho do que com a própria família não é incomum na vida adulta. Por isso, quando as relações nesse ambiente são marcadas por hostilidade, competição destrutiva, fofoca, exclusão ou desconfiança constante, há um impacto significativo na saúde mental do trabalhador que tende a ser proporcional a essa convivência. Um cenário como esse, apresenta características do risco psicossocial relacionado às más relações no local de trabalho, que se associa ao risco de transtorno mental.

Diferente do assédio, que envolve um padrão claro de abuso, muitas das vezes, com uma direção definida entre agressor e vítima, as más relações no trabalho descrevem um ambiente relacional nocivo que é mais amplo e difuso, que é marcado por baixa confiança, pouca colaboração e conflitos frequentes, que pode afetar uma equipe inteira, mesmo sem haver uma pessoa específica que cause esse tipo de ação evidente.

O que caracteriza as más relações no trabalho

Esse risco pode se manifestar de diferentes formas, tais como:

  • Clima de desconfiança generalizada, colegas evitam compartilhar informações ou pedir ajuda uns aos outros.
  • Competição excessiva e destrutiva, especialmente em ambientes com metas individuais muito acirradas, sem incentivo à colaboração.
  • Fofoca e triangulação de conflitos, quando problemas entre pessoas são discutidos com terceiros em vez de resolvidos diretamente.
  • Formação de grupos excludentes, que deixam parte da equipe sistematicamente de fora de informações, decisões ou interações sociais informais.
  • Conflitos mal resolvidos e recorrentes, que se acumulam ao longo do tempo sem mediação adequada.
  • Falta de cordialidade básica no dia a dia, com interações marcadas por grosseria, sarcasmo ou frieza excessiva.

Por que a qualidade das relações afeta tanto a saúde mental

O ser humano é uma espécie fundamentalmente social, desde o nascimento, nos tornamos humanos a partir do convívio com outros seres humanos. Justamente por isso, a sensação de pertencimento a um grupo é uma necessidade psicológica básica. Contudo, quando o ambiente relacional no trabalho é hostil ou pouco confiável, o cérebro processa essa condição como uma ameaça social contínua, ativando os mesmos sistemas de estresse mobilizados diante de outras formas de ameaça.

Os principais impactos incluem:

  • Ansiedade social relacionada ao trabalho, apreensão só de pensar em interagir com determinados colegas.
  • Isolamento progressivo, a pessoa passa a evitar interações espontâneas por medo de conflito ou julgamento.
  • Queda da sensação de pertencimento, um dos fatores mais associados ao engajamento e à permanência no emprego.
  • Aumento do estresse crônico, pois ambientes relacionais hostis mantêm o sistema de alerta do corpo ativado de forma quase constante.
  • Maior vulnerabilidade emocional, torna o trabalhador mais propenso a outros riscos psicossociais, como baixo suporte e baixa justiça organizacional, fatores que costumam coexistir em ambientes relacionalmente deteriorados.

O papel invisível da liderança nesse risco

Más relações no trabalho costumam refletir, direta ou indiretamente, o estilo de liderança e a cultura estabelecida pela gestão. Lideranças que toleram fofoca, que não fazem mediação de conflitos de forma eficaz, que praticam ou permitem favoritismos, ou que fomentam competição excessiva entre membros da equipe, contribuem, conscientemente ou não, para a deterioração do ambiente relacional.

Já, lideranças que modelam comunicação respeitosa, que intervêm rapidamente diante de conflitos e que promovem ativamente a colaboração tendem a criar ambientes relacionais mais saudáveis, mesmo em contextos de alta pressão ou competitividade externa.

Como identificar esse risco em uma equipe

  • Alta rotatividade sem relação direta a carga de trabalho ou remuneração.
  • Relatos frequentes de conflitos interpessoais não resolvidos.
  • Baixa participação espontânea em interações sociais informais (almoços, conversas de corredor, eventos da equipe).
  • Comunicação predominantemente formal e distante, mesmo entre pessoas que trabalham próximas há bastante tempo.
  • Percepção recorrente de "grupos" dentro da equipe, com informações circulando de forma desigual.

O que fazer para reduzir esse risco

  • Mediar conflitos ativamente, não esperar que se resolvam sozinhos. Isso pode não acontecer e costuma aumentar o desgaste relacional.
  • Modelar comunicação respeitosa a partir da própria liderança, pois, o comportamento de quem lidera costuma ser espelhado pela equipe.
  • Desestimular a fofoca e a triangulação, incentivar conversas diretas entre as partes envolvidas em algum desentendimento.
  • Equilibrar competição e colaboração, revisar metas e incentivos que possam estar gerando rivalidade excessiva entre colegas.
  • Criar espaços genuínos de conexão, mais que eventos corporativos formais ou espaços apenas instagramáveis (sem uso real), favorecer interações mais autênticas entre a equipe.
  • Agir rapidamente diante de comportamentos tóxicos, independentemente do desempenho técnico da pessoa envolvida, tolerar esse tipo de comportamento sinaliza, para toda a equipe, que ele é aceitável.

O que a NR‑1 espera das empresas

Dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) previsto na NR‑1, as más relações no local de trabalho devem ser identificadas por meio da escuta ativa dos trabalhadores, considerando sua percepção sobre o clima relacional das equipes. A partir dessa identificação, cabe à organização adotar medidas de prevenção documentadas, como a capacitação de lideranças em mediação de conflitos e comunicação, a revisão de estruturas de incentivo que possam estar gerando competição excessiva, e o acompanhamento contínuo da percepção dos times sobre a qualidade das relações no ambiente de trabalho.

Cuidar da qualidade das relações no trabalho não é apenas uma questão de harmonia ou de clima agradável, mas, segundo a própria NR‑1, uma medida concreta de prevenção ao adoecimento mental de quem passa boa parte da vida convivendo, dia após dia com as mesmas pessoas.